Estudantes estrangeiros vivem experiência de estágio em empresas e ONGs de S. José, por meio de programa do ITA
Beatriz Rosa
São José dos Campos
A turca Duygu Gurleyik, 23 anos, está hospedada há dois meses e meio na casa da família Mancilia Santos, no bairro Vista Verde, zona leste de São José dos Campos. Duygu deixou sua cidade natal, Istambul (Turquia), para se aventurar na cultura brasileira.
Em São José, já arrisca algumas palavras em português, escutou samba, assistiu a uma partida de futebol e experimentou açaí. Duygu também viu de perto o trabalho realizado pelo Pró-Visão com deficientes visuais, entidade onde trabalha como voluntária.
Para ela, a experiência do intercâmbio social é um desafio. "A língua ainda é o maior problema, além da saudade da família. Mas os brasileiros são calorosos e receptivos. Já descobri que as pessoas trabalham muito, não pensei que fosse assim", disse.
Psicóloga, Duygu faz parte de um grupo de 29 universitários estrangeiros que já estagiaram em empresas, ONGs e instituições do Vale por intermédio da Aiesec –ONG dirigida por universitários do ITA, Unip e Univap.
O grupo, que atua há seis anos na região, também já encaminhou 26 universitários para países da América Latina, América do Norte, Asia, África e Europa.
Neste ano, quatro brasileiros viajaram para o exterior e São José recebeu 14 estrangeiros. Além de Duygu, estão na cidade dois nigerianos e uma canadense.
MUNDO - Com escritórios em cerca de 90 países no mundo, a Aiesec desenvolveu uma rede de contatos com mais de 3.500 universitários e outras 3.000 organizações, entre empresas, ONGs e instituições.
De acordo com o presidente da Aiesec no Vale do Paraíba, Caio Macedo, 21 anos, estudante do 4º ano de engenharia mecânica do ITA, a missão é desenvolver lideranças universitárias por meio de intercâmbios.
"É uma oportunidade de criar redes de contatos no exterior, trabalhar com pessoas de culturas diferentes e levar o jovem a experimentar o novo."
Macedo embarca para o continente asiático no próximo ano. Ele irá integrar a equipe nacional da ONG na China para atuar na organização de projetos semelhantes aos realizados no Brasil. "Estou mais apto a falar sobre assuntos diversos, como a Aids na África, ou sobre religião no Oriente Médio. São exemplos de aprendizado cultural."
FRENTES - Atuando em três frentes – responsabilidade social corporativa e empreendedorismo corporativo e social, a ONG pretende aumentar o número de universitários no programa e o de empresas interessadas em trainees estrangeiros.
No Vale do Paraíba, cerca de 60 universitários participam das seletivas realizadas duas vezes ao ano. Cerca de 25 organizações estão cadastradas para receber estrangeiros. Um evento realizado no próximo dia 29 no ITA tem o objetivo de expor o trabalho da ONG, que busca novos parceiros. Responsável pelo 'casamento' entre as fichas de estudantes e empresas, o estudante do ITA Pedro Ivo Cerqueira Pinheiro, 20 anos, afirma que o intercâmbio cultural favorece o estudante e as organizações que os recebem.
"Todos ganham. Os estudantes aprendem outra língua e atuam em sua área profissional ou interesse e a organização ganha um profissional qualificado", disse.
EMPRESAS - Universitários estrangeiros que passaram por empresas da região mudaram a dinâmica das organizações. Segundo o diretor da AFC Consultoria, Fábio César Ismael Sapede, 50 anos, a atuação da venezuelana Maria Lúcia Garcez foi fundamental no contato com clientes da América Latina. Ela esteve na região no primeiro semestre deste ano.
"Maria Lúcia foi fundamental para criar novas relações de exportação, principalmente com a América Latina, em razão de seu espanhol e por conhecer a cultura local."
Segundo ele, por meio da Aiesec é possível trazer pessoas de alto nível educacional com línguas fluentes e culturas diferentes.
Grupo busca aprendizado longe de casa
Um grupo de 26 universitários do Vale do Paraíba já participou dos intercâmbios da Aiesec. Em busca de aperfeiçoamento técnico, formação cultural, administrativa ou social, eles descobriram a oportunidade de se tornarem 'cidadãos do mundo'.
Estudante do curso de engenharia aeronáutica do ITA, Marcelo Araújo Gomes, 20 anos, viajou pela primeira vez para Torun, na Polônia. Lá, trabalhou como professor de inglês com crianças carentes.
Por três meses, falou sobre aspectos da cultura e mostrou músicas brasileiras aos poloneses. Segundo ele, o futebol ajudou, por ser um assunto de integração.
"Na escola, os alunos perguntavam se eu conhecia o Ronaldinho. Eles iam para as aulas vestidos com camisas do Brasil. Aprendi muito sobre a cultura polonesa, mas acima de tudo descobri como é bom trabalhar com crianças."
PONTUALIDADE - Também estudante do ITA, Rafael Fernandes Cunha, 23 anos, optou pelo intercâmbio profissional em Augsburg, na Alemanha. Cunha trabalhou no setor de desenvolvimento da empresa KUKA Roboter.
"Trabalhei na minha área de estudo. Confesso ter sido surpreendido pela organização e pontualidade alemã."
Segundo ele, a maior dificuldade foi fazer amizade. "Tive contato com os outros trainees, mas somente depois de um mês comecei a ter amizades mais sólidas. Então, o intercâmbio passou a ser muito mais interessante."
A estudante de administração e comércio exterior da Unip Rylene de Aguiar Sabadini, 22 anos, pretende atuar em áreas diferentes para ampliar os conhecimentos. "Tenho planos de viajar e aprender coisas novas."
Associação está em mais de 90 países
A Aiesec está presente em 800 universidades distribuídas em mais de 90 países. No Brasil, possui 16 escritórios com sedes em universidades. No Vale do Paraíba, funciona no ITA e é gerida por universitários do ITA, Univap e Unip. Criada em 1948, com o objetivo de promover relações entre os membros de diversos países europeus, a entidade se propõe a desenvolver os indivíduos por meio de cooperações internacionais. Em todo o mundo, o programa de intercâmbio oferece cerca de 3.500 bolsas a cada ano.
Associação lança novo projeto empreendedor
No próximo dia 29, a Aiesec lança um novo projeto, o PEG (Projeto Empreendedor Global). Segundo o estudante do ITA Renzo Nucciteli, 24 anos, que coordena o projeto, o objetivo é facilitar o contato entre empresas dispostas a atuar no terceiro setor com ONGs regionais. Durante o encontro, haverá workshop de elaboração de projetos para arrecadação de fundos destinado às ONGs. Os cinco melhores projetos serão premiados. O encontro é aberto a todos e destinado a universitários, empresas e ONGs dispostas a atuar em projetos sociais.
Domingo, 12 de Novembro de 2006 - http://www.ita.br/online/2006/itanamidia06/nov06/vale12nov06.htm (Matéria Jornal Valeparaibano)